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Capítulo 64 - Entre o Céu e a Terra

  De frente para a porta, Yolina respirou fundo enquanto puxa a ma?aneta. A energia pesada preenche o quarto como um cumprimento da própria morte, da deprava??o e da malícia.

  Deitado sobre a cama, o garoto está afundado nessas sombras. O descontrole, o desequilíbrio de seu Gewissen é visível e, deixá-lo ali apenas pioraria a corrup??o ao longo do tempo que passaria a afetar o ambiente ao redor.

  Firmemente, a idosa n?o se intimidou.

  Para se defender desses pecados, a Constela??o de Coma Berenices se eleva acima de sua cabe?a. O Gewissen puro resplandece em um tom rosado pelas Trevas, consumindo o Beisen do rapaz pela diferen?a palpável na densidade de suas energias.

  Por mais pesada que as sombras sejam, a luz em sua mais pura essência é capaz de apagá-la.

  Aos poucos, a anci? se aproxima do menino até o tocá-lo com o palmo esquerdo.

  Nesse instante, a aura da felina se concentra puramente no toque. Da mente, o anúncio do seu Glanz faz toda a base da Toca da Gata vibrar.

  “Glanz: Fur Mich und Dich…”

  Como fios e linhas de costura, o Gewissen rosado se entrela?a pelo tornozelo de Raisel, mas continua a subir para o resto de seu corpo até envolvê-lo por completo como uma múmia.

  Apenas o rosto do rapaz está descoberto. Porém, ele ainda se mostra inconsciente… N?o há mais negatividade vazando de seu corpo, o que pelo menos anula qualquer chance do ambiente ser danificado.

  一 Dem?nio, sei que está ouvindo… Me deixe conversar com o garoto. – As palavras dela s?o acompanhadas pelo olhar fixo nos olhos dele.

  O menino está encarando o vazio, mas essas emo??es negativas est?o sendo amplificadas pela presen?a da entidade em seu corpo.

  Ao parar de estimular o sofrimento, a consciência de Raisel retorna ao estado s?o. A cor dourada vibrante em seus olhos est?o tingidas de preto, mas ainda assim, possuem algum brilho.

  一 Senhor Yolina…? – Atordoado ainda devido aos pensamentos excessivos, o rapaz aos poucos recobre os sentidos.

  一 Sim, sou eu. Estou aqui para conversar com você, Raisel. – Seguramente, ela se sentou sobre o colch?o. Em um mover do dedo indicador, o rapaz restringido se senta sob o comando dela.

  Todavia, ao ouvir aquelas palavras, o semblante dele se aconteceu. A dúvida ainda hesita o seu cora??o e, como consequência, sequer consegue encará-la diretamente.

  一 Me escute com aten??o. Essa miss?o estava além das suas capacidades desde o come?o. O Yurgen me convenceu de que você estaria seguro após me contar sobre o Leraje e, também, que daria a vida para salvar qualquer um de vocês…

  一 Eu confiei nele. E ele realmente os protegeu como p?de. Conhecendo aquele homem, provavelmente faria o mesmo todas as vezes. – Os olhos dela se abaixam. A primeira vez que o viu, ainda tendo os cabelos negros e com o olhar apaixonado por Sarina, sentiu um verdadeiro alívio ao reconhecer de que a antiga Lebre estaria em boas m?os.

  一 Ele morreu… porque eu sou fraco… Senhora Yolina… Eu n?o tenho nenhuma habilidade… Nenhuma Constela??o como vocês… Eu nunca vou poder ser forte como ele, a Carmen, ou a Jeanice… – Os olhos profundos das lágrimas anteriores encaram diretamente os seus fracassos. O peso de sua sombra aumentou em diversas vezes com a notoriedade do dem?nio.

  Contudo, ao escutar o rapaz, a senhora parece rir.

  一 Você n?o é fraco, Raisel. Pelo contrário. Acredito que n?o exista alguém no mundo t?o forte quanto você. – A pequena m?o esquerda repousa sobre a canela do menino envolto em fios rosados brilhantes.

  一 A única coisa que você é, é inexperiente… e a inexperiência conta com a sorte para o sucesso. Mas eu nunca duvidei da sua for?a em si. As Constela??es s?o apenas atalhos. A maior for?a é o que você tem aqui. – Com a ponta da bengala sobre o punho direito, apontou diretamente para o cora??o do rapaz.

  Os olhos dele se abrem com surpresa.

  A fala dela parece remover os espinhos que voltaram a crescer após encontrar Leraje. As memórias trazem à si todas as prova??es que passou, todas as pessoas que encontrou, mas… isso realmente é ser forte?

  一 Eu… n?o tenho certeza disso… Ter um bom cora??o n?o me deixa t?o forte quanto vocês… – Os olhos dele novamente se apertam com a frustra??o de sua fraqueza.

  Entretanto, uma risada escapou dos lábios da velha ao ouvi-lo.

  一 é óbvio que você n?o vai ficar forte só por ter um bom cora??o, garoto.~ Você por acaso é burro? – A bengala esticou para cima e caiu levemente para atingi-lo no topo da cabe?a.

  Sem entender o porquê disso, apenas a encarou sentindo a pancada na cabe?a.

  一 Ter um bom cora??o é apenas o come?o… Ter um bom cora??o significa ter um espírito forte, uma mente focada em seus objetivos. Para se tornar forte, você primeiro precisa se levantar daqui. Permanecer parado lamentando sobre o que já aconteceu irá apenas lhe deixar fraco para esse dem?nio lhe quebrar lentamente. – A cada frase, a bengala bateu sobre a cabe?a dele.

  Ao término, ela se levantou e caminhou para a porta.

  Os fios que o prendiam se desfazem.

  一 Acredito que você tenha visto o suficiente de como Balmund funciona… O sonho de seu av?, quando ainda era um N?made, era acabar com a Guerra. Se tornar um viajante foi a forma que ele escolheu para combater as injusti?as que ele sofreu… Mas o cora??o dele nunca foi forte o suficiente. Mas agora, é você quem tem o Svartgren. – No fim, retirou-se da sala enquanto o menino encarava as próprias pernas ainda sentado sobre o colch?o.

  Ao sair do quarto, Lavi está escorado na parede logo ao lado. O semblante dele é de preocupa??o, mas também de satisfa??o pelas palavras de Yolina.

  Quando o encarou, a velha resmungou alguma coisa e logo se direcionou para descer as escadarias.

  “Raisel… Você consegue.” – Em seu sorriso, o gêmeo de cabelos brancos apertou o punho determinado para seguir em sua jornada com o amigo.

  Lá dentro do c?modo, o olhar dourado cabisbaixo, se levanta pouco a pouco…

  “Meu av? se tornou N?made pra tornar o mundo melhor? Eu… nunca tinha perguntado o motivo disso.” – Os olhos de foco ao ver o próprio palmo repleto de calos.

  “Eu treinei com ele e com a Carmen pra me tornar um N?made… Isso iria orgulhar eles e era o suficiente pra mim… Mas o vov? se foi e ela já n?o tem mais um dos bra?o… Eu preciso encontrar meu próprio motivo pra lutar…” – O antebra?o passa pelo rosto encharcado de lágrimas.

  “Eu devo fazer isso por eles? N?o, n?o é só por eles… Eu estou fazendo isso por mim, porque eu quero ser forte.” – Pondo-se de pé, o menino concentra sua energia dourada no palmo direito.

  Entre partículas douradas, a forma de um arco reluz. Enquanto a ofusca??o desaparece, a sua colora??o negra e as penas em suas extremidades, por dentro dos galhos torcidos, Svartgren é convocado.

  “Eu quero ser forte como meu av?, mas ser ainda melhor do que ele…!” – Encarando aquela arma, as falhas de Yurgen s?o incorporadas pelo sucessor de seu armamento característico.

  Todo o peso das Trevas se dissipa com a motiva??o. Os olhos dourados recuperaram o seu fulgor.

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  Da porta ainda aberta, o som dos saltos altos de alguém ganham destaque. Com a máscara de coelho no rosto e o terno vermelho, a mulher alta aparece dando poucos toques na porta.

  一 A m?e me mandou vê-lo… Se decidiu? – Na m?o direita, ela está segurando o Medalh?o.

  一 Sim… Eu vou lutar. – Caminhando em dire??o à mulher, Svartgren se desfaz em poeira dourada.

  一 ótimo. A Jeanice me disse que Imoriel está em Rosebond, te levarei para lá e você ativará o Medalh?o de Libra. Venha…

  Estendendo o artefato para o menino, ele segura sem hesitar.

  一 Certo.

  Ao seguir, Raisel sai do quarto e desce as escadarias. De uma porta enorme, está o Sal?o Vazio, o principal lugar para a ativa??o das habilidades de locomo??o da Lebre.

  Pelas laterais, Carmen, Yolina, Lila, Lavi e Jeanice est?o encarando longe do centro.

  O rapaz continua a caminhar rumo ao centro logo atrás da mulher.

  O rosto dele vira para encarar os seus companheiros um a um.

  Lavi demonstra confian?a.

  Lila tenta motivar o rapaz.

  Jeanice, apreensiva, acena com a cabe?a enquanto tem as m?os entrela?adas.

  Carmen, por outro lado, o encara com os olhos estreitos, mas um sorriso breve nos lábios.

  No centro deles, está a velha com seu semblante neutro.

  一 Boa sorte, Raisel. A Lebre estará com você caso aconte?a algo.

  Nervoso, um suor escorre pela bochecha dele. Porém, acenou com a cabe?a demonstrando convic??o.

  De frente para as costas da ruiva escaldante, o jovem apenas espera a ativa??o da Constela??o de Phoenix. As asas em chamas o encobrem em um único segundo e, logo em seguida, desaparecem deixando apenas faíscas.

  “Glanz: Weltraumflügel!”

  Do clar?o das brasas, a vista dele come?a a retornar em uma paisagem completamente caótica.

  No alto de um cume, os vendavais n?o s?o naturais. S?o dos impactos de cada habilidade e técnica conjurada na linha de frente daquela guerra.

  De um lado, à direita, está o Forte de Krizannon: o castelo-muralha que defende o território de Balmund das invas?es e for?as élficas, mas que também serve como uma forma de conquistar essas terras fartas de natureza.

  Do outro, à esquerda, está a fronteira da Floresta Yothergran: uma quantidade de árvores altas como montanhas, servindo como barricada natural das invas?es humanas, mas também como uma base para cada elfo.

  Entre essas duas fronteiras, a guerra é constante. A presen?a de manifesta??es de Gewissen complexas como fórmulas em pleno ar dos elfos em pleno ar, o exército segmentado entre as habilidades humanas e suas tecnologias pelo ch?o, é uma batalha entre duas culturas e povos completamente distintos.

  O céu é escuro como uma tempestade de cinzas.

  Mesmo distante, do alto de um cume há quil?metros, a pigmenta??o do céu e da terra nessa batalha de décadas é um cenário assustador, mas deslumbrante pela dimens?o catastrófica entre os poderes.

  一 Esse é o lugar mais próximo de Rosebond que eu já visitei… Chegar mais perto é perigoso. Tente apontar o Medalh?o de Libra para o confronto e concentre sua energia nele. – Dando alguns passos para trás, a Lebre espera que o rapaz tome à frente.

  Engolindo seco, Raisel toma à frente. Por mais que estivesse de dia, o ambiente é t?o escuro que parece uma noite. Apesar disso, ele n?o se intimidou, pois estava prestes à completar a miss?o de salvar o seu vilarejo ao convocar Imoriel.

  Estendendo o palmo direito para frente, a energia do garoto aflora para fora do corpo como chamas. O dourado de sua aura come?a a ser sugado pelo Medalh?o à frente e, de um instante para o outro, a luz extremamente ofuscante no topo do cume consome toda a batalha, incluindo as fronteiras.

  Ao abrir os olhos, o menino se vê no mesmo espa?o, mas com uma perspectiva completamente diferente. Tudo parece estar congelado, desde os pássaros até a Lebre atrás de si ou a guerra ao fundo.

  De pé em pleno céu, uma figura encapuzada se aproxima do menino. Carregando consigo uma lamparina na m?o direita, o símbolo da Constela??o de Libra acima da cabe?a é completamente diferente de tudo o que ele já viu.

  Normalmente, os desenhos das Constela??es s?o simples com os tra?os e pontos mais arcaicos, mas a autoridade de Libra está t?o forte que Raisel sente que poderia agarrá-la para si.

  Sem que percebesse, a entidade com encoberta pelo robe negro havia se aproximado.

  一 Você é… Imoriel? – Incrédulo, o rapaz levanta o rosto para tentá-la encarar nos olhos, mas diferente de tudo o que já viu, a criatura n?o possuí uma fei??o… é como uma capa flutuante.

  一 Correto. Eu sou o Mensageiro das Estrelas e estava esperando a sua vinda, Raisel. – A voz da Calamidade n?o vem diretamente dela, mas sim como se ecoasse por todo o espa?o.

  O fantasma come?a a diminuir a sua própria forma até ficar do tamanho do menino. A lamparina brilha em um dourado muito semelhante ao do rapaz, transformando-o quase como um reflexo daquele que está portando o Medalh?o.

  一 Você me conhece? – Extremamente confuso, a sensa??o é como encarar a si mesmo em um espelho.

  一 Sim. Eu acompanhei a sua jornada desde o início. Sua bravura é emocionante. As Constela??es est?o satisfeitas com o desfecho da sua aventura. – Esticando o palmo esquerdo para ele, a Calamidade da Moral parece convidá-lo para pisar aos céus.

  Hesitante, o rapaz observa a altura do cume. Mas ainda assim, dá o passo à frente para pisar nos céus. O cenário completamente congelado o faz questionar se isso é realmente real…

  一 Onde nós estamos? – Os olhos n?o paravam de encarar os detalhes paralisados do ambiente.

  一 Na Ponte para o éden. Mas você n?o consegue entender por ainda estar vivo… Digamos que aqui é o Céu, o lugar mais próximo das Constela??es.

  Com a fala da entidade, Raisel percebe que há diversas estrelas no céu pulsantes e radiantes. Elas s?o visíveis mesmo durante o dia, pois toda aquela escurid?o e neblina se dissipou com a apari??o da Calamidade.

  一 Se você sabe quem eu sou… Você sabe porque eu estou aqui? – Desconfiado, ele está cada vez mais distante do cume ou de qualquer terra.

  一 Sei, mas para conceder o seu desejo, você precisará passar pelo Verdadeiro Julgamento. – Imoriel para de caminhar ao terem se distanciado o suficiente. No fim, a criatura se virou para ele.

  一 Está pronto?

  Acima da terra, mas abaixo do éden, o palco está montado no Céu sob o olhar das Estrelas.

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