17 de Julho de 2025. 15:30.
O ar na pequena sala de espera da escola estava pesado, denso com o cheiro ran?oso de nervos e desespero. Alunos folheavam notas de última hora, as suas mentes a tentar absorver mais do que era possível, as suas pernas a abanar incessantemente sob as cadeiras. No meio deles, Moisés era uma ilha de calma. Ele estava sentado, de costas direitas, as m?os pousadas sobre os joelhos, a sua respira??o lenta e controlada. A sua prepara??o fora meticulosa, cada linha de código revista, cada sec??o do relatório memorizada. Esta n?o era apenas uma prova; era a sua oportunidade de cumprir a promessa silenciosa que fizera sobre as cinzas da sua antiga vida: a promessa de ser bem-sucedido, de construir o futuro brilhante que a sua família sempre quisera para ele.
Minutos antes de o seu nome ser chamado, uma sombra caiu sobre ele. Rui surgiu ao seu lado, com o seu habitual sorriso de desprezo. "Boa sorte lá dentro, órf?o. Vais precisar. Duvido que consigas juntar duas frases sem gaguejar, como nos velhos tempos."
Moisés n?o lhe deu a satisfa??o de uma resposta, nem mesmo de um olhar. Continuou a encarar a parede à sua frente, e o seu silêncio absoluto foi mais cortante, mais desdenhoso do que qualquer insulto que pudesse proferir. Ele sentiu a negatividade de Rui, o seu veneno, e em vez de o deixar entrar, usou-o. Mentalmente, pegou naquela energia mesquinha e transformou-a em a?o na sua espinha. Cada palavra de escárnio era mais uma gota de combustível para a sua determina??o.
Quando a porta se abriu e o seu nome foi chamado, ele entrou na sala de avalia??o completamente focado. Diante do painel de professores, ele apresentou a sua API para a biblioteca digital. Explicou a arquitetura robusta em Django e a interface reativa em Angular com uma clareza e uma confian?a que fizeram os professores, habituados à hesita??o nervosa dos alunos, endireitarem-se nas cadeiras. Ele movia-se pelo seu projeto com a mesma precis?o de um golpe em treino, cada explica??o um movimento deliberado, cada resposta a uma pergunta um contra-ataque perfeito. Foi, como ele planeara, uma apresenta??o lindíssima.
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N?o houve celebra??o. Assim que saiu da sala, ignorou os olhares curiosos e os parabéns hesitantes. Foi direto para a saída, para a sua bicicleta, e pedalou para o seu santuário. Para o bosque.
O seu sucesso na escola, a prova de que podia dominar o mundo dos homens, apenas refor?ou a sua determina??o de se preparar para o mundo dos deuses e dos monstros. Ele já conseguia, com esfor?o, usar quinze por cento do seu poder sem se transformar, mas sabia, no fundo da sua alma, que para os desafios da academia cósmica, isso seria considerado pouco mais do que uma crian?a a brincar.
Por isso, treinou. O ver?o tornou-se um ciclo implacável de suor, dor e progresso. O sol nascia para o encontrar já a praticar os seus movimentos e punha-se enquanto ele ainda desferia golpes contra o ar do crepúsculo. Dia após dia, ele empurrava os seus limites físicos e energéticos sob o olhar atento e silencioso do Guardi?o.
No final de agosto, a mudan?a era visível. Os seus músculos, antes finos, eram agora mais densos e definidos. Os seus reflexos, antes rápidos, eram agora instantaneos. Mas a maior mudan?a estava no seu olhar. Havia nele uma calma perigosa, a confian?a de um profissional que conhece as suas ferramentas até ao mais ínfimo detalhe.
Numa tarde, enquanto descansava encostado a uma árvore, o seu telemóvel vibrou no bolso. Um e-mail da escola.
ASSUNTO: Resultado Prova de Aptid?o Profissional
O seu cora??o parou por um segundo. Com o dedo a tremer ligeiramente, ele abriu o e-mail. E lá estava o número, solitário e magnífico no ecr?.
19.
Um sorriso genuíno, o primeiro em muitos, muitos meses, abriu-se no seu rosto. Uma onda de alívio e um orgulho agridoce percorreu o seu corpo, aliviando uma tens?o que ele nem sabia que carregava. Ele levantou o rosto para a copa das árvores, para o céu azul que se via por entre as folhas.
"Consegui, m?e. Pai. Mana", sussurrou ele para o vento, a sua voz embargada. "Deixei-vos orgulhosos."
A alegria estava lá, quente e real. Mas n?o era o fim. Era apenas mais um passo numa escadaria infinita. O sorriso desapareceu t?o rapidamente como tinha surgido, substituído pela sua habitual máscara de determina??o. A nota era para eles. A sua memória. A sua honra.
A miss?o... a miss?o era para todos os outros. Ele n?o queria apenas passar num exame. Ele queria salvar o universo. E o seu treino estava longe, muito longe de ter acabado.

