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Capítulo 4: O Homem de Bronze

  A Estrada dos Gr?os terminava de forma abrupta, como uma artéria aberta despejando tudo no cora??o pulsante da cidade: a Pra?a Jardim do Mérito. Isso, claro, se esse cora??o n?o estivesse constantemente à beira de um ataque cardíaco, palpitando feito o miocárdio de uma avó que teve seus remédios trocados por cápsulas de cafeína pelo netinho hiperativo e ligeiramente homicida.

  A pra?a era monumental. E feia. N?o no sentido comum, mas naquela feiura desconcertante que nasce do contraste entre o que já foi belo e o que foi transformado por for?a. No lugar onde Micah esperava encontrar um jardim ou uma pra?a pública comum, encontrou algo que lembrava uma feira brasileira de sua cidade... só que se o diabo resolvesse abrir filiais e vendê-las como patrim?nio histórico.

  Tendas improvisadas com cores vibrantes se amontoavam em padr?es irregulares, com comerciantes gritando ofertas em vozes que competiam umas com as outras em volume e desespero. Havia frutas, verduras, ferramentas, roupas, animais e — com o mesmo tom de propaganda de liquida??o — pessoas. Homens e mulheres acorrentados, com placas penduradas no pesco?o anunciando habilidades, idades e condi??es dentárias. Micah percebeu que muitos comerciantes vendiam suas mercadorias diretamente do ch?o, sobre panos sujos ou tábuas improvisadas. Outros, mais afortunados, ocupavam as lojas fixas ao redor da pra?a, protegidas por grades e por uma distancia segura da ralé.

  O som era uma cacofonia de vozes, ferraduras, sinos e correntes. O cheiro… era uma guerra. Entre especiarias, carne assada, peixe velho, poeira e suor humano acumulado sob o sol castigante, n?o havia vitória possível. E tudo aquilo misturado a algo que ele demorou alguns segundos para identificar: cinzas queimadas, como de um churrasco... sem a picanha.

  Seus olhos foram atraídos para o centro da pra?a. Três estruturas dominavam a paisagem: duas plataformas de madeira com cordas balan?ando suavemente ao vento, como se sentissem falta de corpos, e uma estaca negra e imponente, cravada sobre um pedestal de pedra enegrecida por fuligem e gordura derretida.

  Micah n?o precisou perguntar. O cheiro, o olhar desconfiado das crian?as que passavam de cabe?a baixa, e o homem ali ao lado — raspando cuidadosamente o pó negro e embolsando-o com uma reverência quase religiosa — falavam por si. Mais ao fundo, uma carro?a da Igreja, com o bras?o pintado à m?o— Uma serpente prateada, enrolada simetricamente envolta de um eixo vertical negro—, recebia pequenos sacos de pano, enquanto um acólito anotava algo num pergaminho e dizia, em voz baixa, mas clara:

  — Três medidas. Puro. Da bruxa da colina. Axis há de aben?oar os campos...

  Ele desviou o olhar, o est?mago se contorcendo como se tentasse fugir pela própria garganta.

  Era ali que os escravos eram vendidos.

  Era ali que as pessoas eram penduradas.

  Era ali que algumas... viravam cinzas, e depois…

  Adubo.

  A pra?a n?o era só um centro comercial. Era um altar. Ordem disfar?ada de caos, abafada pelas centenas de tendas e o fluxo constante do comércio. Mas, onde todas as tendas s?o desmontadas alguma hora, as plataformas e a estaca permanecem, fixas no centro, prontas para realizaram mais um espetáculo.

  à sua frente, ocupando grande parte de sua vis?o como um deus de pedra que se recusava a morrer, erguia-se o Mercado Ducal.

  Micah precisou de alguns segundos para entender que aquilo era, de fato, um prédio funcional — e n?o um mausoléu de um monarca obcecado por ouro, colunas e megalomania.

  O edifício era um monstro barroco. Um exagero arquitet?nico com curvas, torres e adornos que pareciam ter sido entalhados por escultores com surtos místicos. A fachada, de pedra calcária clara, estava entalhada com centenas de figuras: anjos de rosto severo, serpentes enroscadas em pilares, comerciantes carregando balan?as— No entanto, esses aparentavam terem sido esculpidos mais recentemente —, e olhos... muitos olhos. Todos esculpidos com precis?o desconfortante, como se vigiassem os passantes — como se julgassem.

  As janelas em arco, decoradas com molduras douradas já corroídas pelo tempo, ostentavam vitrais em tons de ambar e cinza, filtrando a luz do sol como se fosse pecado entrar ali sem pagar o devido tributo.

  A entrada era um arco triplo monumental, ladeado por colunas coríntias t?o ornamentadas que pareciam competir entre si por aten??o. Acima dela, uma inscri??o do lema da cidade dizia:

  “DOS FRUTOS NóS CRESCEMOS.”

  Ele notou que ninguém com correntes nos pés cruzava os degraus polidos da entrada. Os guardas n?o usavam o bras?o tradicional de Luther, oque mostrava que n?o eram financiados pelo Estado, mas sim por outra organiza??o que tinha o poder sobre o Mercado Ducal.

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  O Mercado Ducal n?o era um lugar onde se comprava por necessidade. Era onde se provava o próprio valor pela moeda. E isto era estampado em cada aspecto de sua estrutura.

  Enquanto os gritos dos vendedores ecoavam pela pra?a, e os sinos anunciavam mais uma execu??o marcada para o fim da tarde, Micah manteve os olhos no prédio — tentando entender o que aquela monstruosidade barroca dizia, mesmo em silêncio.

  Naquele momento, ele só desejava uma coisa: Voltar para casa.

  Ainda sentia dor, fome, sede. E o cansa?o o corroía por dentro. Mas o medo — o medo e a incerteza de seu destino — abafavam tudo.

  Mesmo que seu lar fosse um muquifo alugado numa favela perigosa, que mal ocupava meio andar de uma casa caindo aos peda?os, onde ele precisava lidar com barulho de vizinhos detestáveis até as duas da manh?… ainda era mil vezes melhor do que isso.

  No entanto, o universo, com seu senso de humor peculiar, ignorou solenemente os desejos de Micah. Antes que ele pudesse afundar ainda mais no próprio desespero, o grupo virou à esquerda da pra?a, e a carro?a parou num espa?o na cal?ada já desgastado pelo comércio humano. Um por um, os escravos foram ordenados a formar uma fila ao lado da carro?a.

  Os homens foram obrigados a remover suas túnicas — ostensivamente para avalia??o física, mas também, é claro, para alimentar a vaidade cruel dos compradores. Micah, ao tirar a própria, ficou parecendo um erro de digita??o no meio de um parágrafo musculoso. Seu corpo magro e pálido destoava tanto dos outros que por um instante ele se sentiu n?o um humano, mas um pássaro despenado à venda numa feira de galos de briga. Ainda assim, n?o p?de evitar uma pontada de inveja. Um sentimento patético, considerando que ele sequer possuía mais direitos humanos básicos — mas o ego, coitado, sempre tenta sobreviver um pouco mais que o corpo.

  O tempo passou. Compradores vieram e foram: fazendeiros buscando bra?os para a lavoura, comerciantes à procura de carregadores, e alguns cujas inten??es com as escravas n?o requerem muita imagina??o — apenas uma pitada de nojo. Lentamente, a fila foi esvaziando. As barracas da pra?a come?aram a ser desmontadas com a aproxima??o do toque de recolher.

  Micah, observador involuntário, come?ou a notar um padr?o inquietante. A maioria esmagadora dos cidad?os usava túnicas negras. Mas entre eles, surgiam figuras raras e ostentosas — indivíduos envoltos em capas prateadas, adornados com joias, braceletes e broches cuidadosamente polidos. Moviam-se com altivez, sempre acompanhados de carruagens, servos ou guardas — e, mais importante, de autoridade silenciosa. Bastava um olhar para que os negros abaixassem a cabe?a. Ninguém ousava contrariá-los.

  Micah ent?o entendeu, mesmo sem explica??o: as cores das vestimentas eram uma hierarquia viva. Os pretos obedeciam. Os prateados comandavam. E quem errasse essa ordem... sangrava.

  Quando o céu come?ou a se tingir de laranja queimado, restava apenas um corpo magricela e ruivo ao lado da carro?a. Os escravagistas tentaram abaixar o pre?o — fizeram piadas sobre “leve esse e ganhe um porco ferido grátis” — mas ninguém parecia disposto a pagar nem pelo esfor?o de negociar. Quem, afinal, iria querer um escravo franzino, que mal sabia carregar o próprio peso? Ainda que, segundo ele, conseguisse imitar um bem-te-vi com perfei??o — uma habilidade útil apenas se fosse vendido como entretenimento para velhas solitárias com pássaros empalhados.

  Justo quando os escravagistas já bufavam, prontos para desistir e voltar à fazenda com o prejuízo, o som ritmado de cascos ecoou pela pra?a.

  Uma carruagem azul-escura, puxada por um único cavalo e com o bras?o de Luther bordado em linha dourada, parou diante deles. O cocheiro, com trajes t?o alinhados quanto uma senten?a de morte, desceu calmamente e abriu a porta traseira. Dela saíram dois guardas vestindo armaduras de placa completas, empunhando consigo lan?as ornamentadas. E ent?o… ele apareceu.

  Um homem jovem de aparência pálida, de cabelos castanho-claros levemente bagun?ados como se houvesse saído correndo de uma biblioteca em chamas — mas sem perder a elegancia. Vestia um traje de tecido fino em turquesa escura, com uma meia capa bronzeada com sigilos brancos costurados em padr?o circular pendendo sobre o ombro direito.

  Ergueu a m?o para proteger os olhos lilases do sol poente, suspirou e disse consigo mesmo, com voz doce e bem treinada:

  — Cheguei mais tarde do que planejava… bem, o que foi já foi.

  Seu olhar ent?o caiu sobre os escravagistas. Ele caminhou até o mais velho deles, que observava seus homens desmontarem os restos do comércio com a lentid?o de quem já viveu demais.

  — Boa tarde, senhor. Poderia me informar se ainda há algum kaleorino à venda? — Perguntou o homem de capa bronzeada, com um sorriso gentil e voz melódica, como se estivesse pedindo uma xícara de chá e n?o um ser humano.

  O velho escravagista, ao notar quem estava diante de si, empalideceu por dentro. Soltou o cachimbo da boca, tirou o chapéu e se curvou t?o depressa que quase engoliu o próprio orgulho.

  — A-Alquimista Real Ezra! Mil perd?es por minha insolência! N?o imaginei que veria alguém t?o ilustre em um lugar como este. Como posso servi-lo? — gaguejou ele.

  Ezra riu baixinho. Um riso contido, quase tímido — como se n?o quisesse incomodar as moscas da pra?a.

  — Ora, o que é isso? Está me bajulando demais, senhor. Por favor, levante-se. Vim apenas por um motivo simplíssimo… preciso de um escravo kaleorino. Vejo, no entanto, que cheguei tarde e a maioria já foi adquirida. Há algum restante?

  O velho co?ou a barba, olhos ainda arregalados. Depois de engolir o desconforto, respondeu:

  — Bem… temos um. Mas, se me permite dizer, ele é praticamente inútil. N?o vejo serventia nenhuma — fraco, estranho… e ruivo. Um completo desperdício de comida. Mas… se o senhor insiste… posso deixá-lo por cinco soldos.

  O velho fez um gesto, e um dos capangas puxou Micah pelo bra?o, colocando-o diante de Ezra como um objeto fora de estoque.

  Ezra o encarou por alguns longos segundos. Seus olhos analisavam Micah como se ele fosse uma fórmula incompleta, cheia de riscos… e promessas ocultas. Ent?o sorriu — aquele mesmo sorriso suave, amistoso, inofensivo.

  — Me dê sua m?o. — Ele ordenou a Micah, estendendo sua m?o direita enluvada.

  — O que? Okay… — Respondeu de forma desconfiada, dando a ele sua m?o.

  Ezra ficou em silêncio por um momento, fitando a m?o dele. Naquele segundo, Micah podia jurar que viu algo brilhar dentro de sua luva.

  Ent?o ele soltou a m?o do escravo, virou-se para o velho, seu sorriso havia aumentado consideravelmente, e declarou:

  — Vou levá-lo.

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